Vasilhas de Felgar
Recusando-nos a embarcar na carreira das exposições etnográficas de padrão decorativista, por constituírem uma abdicação dos museus no que toca aos seus objectivos científicos e pedagógicos, e representarem, no mínimo, uma descarada manifestação de superficialidade e desrespeito pelo público, - ao resolvermos apresentar a nossa colecção de loiças de Felgar, pôs-se-nos a questão de decidir sob que perspectiva a apresentaríamos. (…)
Em ordem a tornar o objectivo da exposição mais imediatamente perceptível, e a reduzir ao mínimo o emprego de tabelas, repartimos os artefactos por categorias de funções, acomodando os três grupos constituídos numa discreta compartimentação das margens da sala, e evocando as respectivas utilidades por meio de legendas genéricas coladas aos painéis. (…)
No título da exposição "Vasilhas de Felgar: objectos úteis" – introduzimos de propósito um elemento, o adjectivo, que era para ser provocativo, mas que, afinal de contas, não é senão discutível – discutível não porque é redundante- à ideia de vasilha anda já associada a ideia de utilidade, - mas porque, no seu sentido corrente – que se diria herdeiro de valores próprios de níveis sócio-económicos de subsistência, - não abrange coisas que nós hoje não nos atrevemos a classificar de inúteis. Seja como for, porém, a verdade é que, em Ceramologia, a oposição útil/ utilitário- não útil/ não utilitário não só está consagrada, como não perdeu interesse operatório. Ainda muito recentemente, Victor Nieto Alcalde, num artigo em que do adiantamento do processo pelo qual a cerâmica se vem libertando da sua "servidão funcional" deduz crescentes possibilidades de ela se afirmar cada vez mais como "linguagem artística autónoma", - trata exactamente de "inúteis" os objectos cerâmicos libertos de velha servidão.
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