Bonecos e vasilhas de barro o Vale de Jequitinhonha, Minas Gerais
A Colecção em exposição foi adquirida pelo Ministério das relações exteriores do Brasil e posteriormente doado ao Museu de Olaria, constituindo presentemente uma fatia importante do seu acervo.
Este gesto tem como objectivo fortalecer e incrementar as relações culturais entre Portugal e o Brasil.
O Museu de Olaria ao repor esta colecção, pretende proporcionar ao público a oportunidade de contactar com a olaria do Vale de Jequitinhonha e simultaneamente vincar a sua função de agente divulgador da cerâmica de outros países, com destaque para os de expressão Portuguesa. Permite-se- assim, a um grande leque de público, contactar com outras formas de trabalhar o barro e com a cultura daqueles que na década de 70, habitavam e trabalhavam no Vale de Jequitinhonha.
Vale do Jequitinhonha localiza-se ao norte do estado de Minas Gerais, sudeste do Brasil. Dele fazem parte 52 municípios e cobre uma área de 85.027 Km quadrados.
Os objectos aqui apresentados vieram a constituir uma colecção única como resultado de aquisições em diferentes momentos, que se somaram ao longo do tempo.
No ano de 1974, Lélia Gontijo realizou para o então Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional, pesquisa sobre a extraordinária olaria do Vale de Jequitinhonha. Procedendo a minuciosa levantamento de cunho eminentemente etnográfico, fez um primeiro registo das condições sócio-culturais das comunidades que compõem aquele pólo produtor, um dos mais expressivos do país, preocupada em contextualizar o universo material e simbólico de onde emana esta criação de bonecos e vasilhame. Durante a pesquisa de campo deteve-se ainda no registro da tecnologia dos ceramistas, entendendo-a como um processo que implica a obtenção e preparo da matéria prima, nas etapas de transformação do barro em objectos de cerâmica no cozimento e acabamento final – como evidencia a amostragem de grade tecnológica com a artesã. Isabel Mendes Cunha no catálogo da exposição, em investigar os canais de escoamento da produção, questão relativa à comercialização dessas expressões da cultura material. (…)
Em 1979 atendendo à solicitação da Divisão de Dfusão Cultural do Minstério das Relações exteriores do Brasil, retornou a pesquisadora ao estado de Minas Gerais, para adquirir uma nova colecção representativa da cerâmica daquela região. Esta colecção constitui a parte principal de acervo desta mostra que incluiu, ainda, algumas doações particulares ( de 1980 a 1982), além de outras peças anexadas em 1984 com o intuito de tornar a exposição mais representativa, uma vez que a mesma se destina a um museu de alto nível, em Portugal, como é o de Barcelos.
Portanto, esta colecção fez-se num período de dez anos, o que viabilizou a observação diacrónica de uma mesma realidade social, e o registo de características de tradição e mudança, patenteados na olaria do Vale de Jequitinhonha.
Os dados da pesquisa citada foram da maior importância para que esta mostra viesse a ter a configuração que apresenta. Pode-se afirmar inexistir, anteriormente à década de 1970, pesquisas de cunho eminentemente etnográfico sobre a produção de cerâmica do Vale de Jequitinhonha. Dados anteriores a essa data foram recolhidas da memória colectiva do grupo, através de entrevistas. À medida que os depoimentos dos informantes se ratificavam, foi-nos possível estabelecer um marco para a discussão sobre a realidade desse pólo produtor de cerâmica (…)
A cerâmica pode ser aqui agrupada em duas séries, exemplificadoras de tradição e mudança, embora na realidade os objectos se mesclem uns aos outros, posto que portadores da mesma contemporaneidade. Parece-nos ser esta a forma menos interventora de expô-los a um público distanciado do meio que lhes deu origem, uma vez que outras tipologias se mostraram insuficientes para a classificação dessa rica realidade, onde um pote utilitário para guardar água assume forma figurativa elaborada. Onde utensílios de cozinha se revestem de elementos religiosos e simbólicos.
É esse universo que a presente exposição retrata.
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