Um barrista de cada vez: Júlia Ramalho
Filha de José Gonçalves da Mota e de Rosa Oliveira Maia, nasceu em S. Martinho de Galegos, a 3 de Maio de 1946. Casa-se a 2 de Setembro de 1967, vindo a enviuvar alguns anos depois e casar-se novamente. Dos dois casamentos teve seis filhos, um dos quais - uma menina - morreu num acidente (12-11-1983). Nenhum mostra vontade de se dedicar ao ofício. Decidido a continuar a estudar, diz um deles que quer é "arranjar um emprego sem ser sujar-se no barro". O pai era ceramista (estatuetas moldadas), mas da Júlia sobretudo se deve ter presente que é neta de Rosa Ramalho (falecida em 24-9-1977).
"Aprendi a mexer no barro de pequenina". Com dez anos, eu comecei a trabalhar aquelas primeiras peças, mas com dez anos, não há criança nenhuma que assuma, e diga assim: "Estou a trabalhar, já sou livre!" Inicia-se à sombra tutelar da avó. Lembra os estudantes de Belas – Artes que frequentavam a oficina da Rosa, "que conviveram mais comigo": "o António Quadros, o António Bronze, uma Clara, uma Luísa Brandão, uma Flávia, um Luciano, que era da Madeira, um Amândio, o Armando Alves, o Zé Rodrigues, mais novo". Alguns, como o Bronze, visitam-na ainda hoje. A Júlia fala, e percebe-se que não é fácil ser neta de Rosa Ramalha, ter trabalhado com ela e, no que tange ao ofício, ser "livre". Um acidente automóvel, em Novembro de 1983, marcou-a de modo indelével. Mas resiste, e está aí para surpreender e registar no barro flagrantes sérios do nosso quotidiano, sem esquecer as tradicionais visões oníricas e fantasmagóricas. Um pormenor: A Rosa, antes de Galegos se ter tornado numa espécie de local de romagem, era "a Ramalha". A mãe da Rosa tinha sido "a Ramalha Velha". Depois… foi o que se pode ver, e a Júlia assina "Júlia Ramalho". Os senhores da cidade, de uma ou de outra forma, sempre acabam por impor os seus padrõesl Em certos casos, é pena, não é?
Figurado de Barcelos: A produção actual. Exposição. Museu de Olaria , 1984
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