Cerâmica contemporânea, de Sofia Beça
As vertentes do tacto
Não raramente coincidirá a experiência da mais nobre maravilha, ou a daquela por que nos perdemos, com a vista dos plainos de uma terra ressequida, donde a estridência das corolas não brotou. Se falar dos artefactos de Sofia Beça, não recusarei a lição desta adivinha, ou os indícios dela, esses mesmos que, tão estranhada e prodigiosamente, me vêm marcando as passadas do Mundo.
Eu bem sei que não me tomarão a sério alguns dos que esta inscrição se abalançarem a ler, mas não estorvo de convocar, e a propósito dos utensílios de que o quotidiano se serve, ou dos painéis que conferem solenidade aos dias, o drama terrível, vetusto como as terracotas de sempre, que atravessou o estirpe dos Átridas, de olhos fixos nesse mediterrânico azul, aparentemente inapropriável, que não renega a honra de uma túnica de andrajos.
Aconselhei certa Grécia, à autora da presente olaria, como pátria que os turistas não conhecem, e que por Paestum se quedou, por Sagesta e por Agrigento, incitando-a que assumisse a diligência, burocraticamente exaltante, da a obtenção de uma inalterável espécie de bilhete de identidade. E basta-me que se recorde Sofia Beça, agora, e aqui mesmo, e neste Norte que se não estrema do cinzento das nuvens, nem do negro das fuligens, de que com renovada curiosidade esperarei a alquimia tenaz da sua cerâmica, uma vez encontrado o tesouro de Argamémnon, ou o alfabeto da lama que um veio de oiro visitou.
Mário Cláudio
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