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Selles Paes: uma doação

Sellés Pães estudioso profundo do fenómeno oleiro de Barcelos, depois de ter feito uma recolha substancial do mais significativo e melhor que se fazia nas olarias do concelho, na década de quarenta, prometeu oferecer a sua colecção de olaria popular barcelense, em todas as variedades de fabrico, à Câmara Municipal.
É na sequência dessa promessa que foi proposta a criação de uma sala de Artes Regionais e se concretizou a oferta. Por carta escrita ao Presidente da Câmara, em 17 de Março de 1952, Sellés Pães identifica a doação: as peças de olaria popular barcelense em todas as variedades de fabrico – vidrada, por vidrar, negra e pintada. Acrescenta que não está incluídas na colecção municipal as peças não pertencentes em fabrico à nossa região, tal como os bonecos de Estremoz, peças de Canha, Vilar de Nantes, Pampilhosa, etc. salvo se, ao Município e para comparação, parecer de vantagem que a ele Município pertençam. Reconhece ainda o direito de englobar na colecção das olarias as rocas, fusos, espadela, espadeladouro, partiselas, jugo de trabalho, fundo de tabuleta de carro e artefactos de folha que na sala do depositário se encontram assim como os lenços de mão bordadas a ponto de cruz.
Amante da sua terra, Sellés Pães, acrescenta ao espólio cerâmico barcelense um conjunto de peças de outras regiões e objectos etnográficos. Assim, como ele mesmo havia de considerar, a sua doação compreendia três conjuntos:

·

o da cerâmica barcelense (olaria e figurado);

·

o dos artefactos de barro de outras proveniências;

·

o dos demais objectos etnográficos.

A Câmara de Barcelos aceitou a doação e deliberou que à colecção de olaria popular, fossem acrescidos as peças não pertencentes em fabrico à nossa região, bem como os objectos etnográficos e os lenços bordados. Com esta doação, composta por mais de 700 peças, criou-se o embrião do actual Museu de Olaria. Deste modo, com artefactos de outras proveniências. Sellés Pães determinava a dinâmica deste Museu, transformando-o de museu local em museu aberto com a vontade do doador, permitissem aprofundar os estudos, pela comparação e compreensão da difícil problemática da olaria.
Na mesma ocasião, estando prevista uma exposição com o espólio doado, a sua modéstia levou-o a solicitar que de todas as peças fosse retirada a etiqueta que juntamente com o nome da peça indica a origem da colecção, e que na exposição ao público nada indicasse que a colecção teve a sua origem num particular. Esta característica pessoal que sempre lhe foi peculiar, levou-o, em correspondência com o museu, em 24 de Junho de 1984, a firmar: se por acaso, da documentação em arquivo, ler os termos em que fiz a doação à Câmara Barcelense, deve ter notado que o brilharete pessoal, as honrarias, as palmas, os louvores, os agradecimentos, foram coisas que nunca moveram o meu espírito, nem foram motivação impulsionadora para qualquer atitude minha. (…) Por pudor não fui eu quem se deslocou a Barcelos para remontar, ou mostrar o que ao público estava exposto.(…)




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