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Louceiros de Santa Comba: histórias que o barro escreve

Loueiros de Santa Comba

Em Santa Comba de Foz Côa, floresceu em tempos um núcleo de artesãos que congregou um saber revelado numa arte tão antiga quanto a memória dos primeiros homens sobre a terra. Os Louceiros, assim chamados pelo povo, trabalhavam o barro fazendo repetir, de cada vez e a cada gesto, o acto de criação divina. Na margem do rio Côa roubavam à terra a matéria logo transportada para ser trabalhada, moldada e torneada entre os dedos, sobre a roda que girava continuamente uma existência humilde. Com poucos meios mas particular engenho compunham formas para o uso quotidiano, para guardar os produtos das colheitas, para buscar e beber água, para cuidar da higiene, para tratar os animais. Voltavam ao Côa para atravessá-lo a caminho de outras terras levando comsigo os cantarinhos, pucarinhos, panelas, bilhad e talhas a dorso de animal, para vender ou trocar pelo pão de cada dia.
O tempo dos louceiros não é o nosso. Hoje os dias são ouros, e há já muito que as últimas mãos de Santa Comba pararam de laborar e os últimos pés de girar a roda. Muitos buscaram a sorte noutros lavores e noutras longitudes, fugindo às antigas horas de provação. Perdeu-se a ciência da louça, que conheceu novos usos, antes de se ir quebrando. Os fornos e lugares ameaçam a ruína e os últimos utensílios jazem esquecidos ao conhecimento dos habitantesde hoje e aos olhos do comum visitante. E assim este vale encantado  enfrenta a agonia comum a todo o universo rural de fronteira.
Para que todos admiram um fragmento do passado recente desta comunidade, fica esta exposição para contar as histórias que o barro (ainda) nos permite escrever com base na memória da gente. Aos que ficaram, conquanto herdeiros destes artistas, e também daqueles outros que vincaram os seus traços nos primórdios da Humanidade, caberá porventura recriar com novas formas esse saber da terra que é também um património do rio e um dos seus valores de identidade.  Que transporte para o futuro o que ao presente parece falar em alento, prosperidade e esperança.




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