Olaria Portuguesa: do fazer ao usar
O encanto da olaria
A olaria de antanho- essas singelas vasilhas de barro que serviam nas cozinhas dos nossos avós -, ainda hoje nos deleita.
Talvez o encanto da olaria resulte da magia da sua criação. O sabermos ter sido, numa fase de gestação, matéria que facilmente obedece ao tacto das mãos, que se pode modelar e que, pela acção do fogo se transforma em matéria consistente, imutável, mas, simultaneamente, frágil e quebradiça.
Talvez o encanto da olaria seja sensorial. Uma bela peça de barro, com uma bela peça de a sua ondulação, convida-nos a senti-la, a afagá-la, a passar sobre ela as mãos, sentindo o seu peso, a sua ondulação, a rugosidade ou a maciez da sua superfície.
Talvez o encanto da olaria seja a beleza das suas formas que possui, originadas nos gestos de muitos homens, no uso de tantos outros, que foram apurando as formas, que foram afeiçoando o imperfeito até transformar as peças em autênticas obras-primas. Está lá tudo – a relação de ouro estabelecida entre a função para que foi criada e a sua valia estética. É algo que nos apetece admirar, tocar e sentir. Algo que nos entra pelos olhos dentro, que nos aquece a alma. É um hino à criatividade, um hino à harmonia. É a relação perfeita estabelecida entre a funcionalidade que caracteriza qualquer vasilha de barro de antanho – ela nasceu porque dela havia necessidade -, e a beleza da sua forma.
Talvez o encanto da olaria seja derivado de ser criação de uma população, uma resposta às suas necessidades. A olaria é uma exigência colectiva da comunidade que satisfaz e serve. É a resposta às suas necessidades básicas. A olaria é património de uma comunidade, não de um homem. Na repetição constante de determinadas formas, verificada ao longo de muito séculos, encontramos os princípios básicos da ergonomia - a concepção de peças de grande valia estética que respondem às exigências funcionais de uma comunidade. Um oleiro repete e continuará a repetir a forma de uma vasilha enquanto a comunidade que a usa dela tiver necessidade. Há formas oláricas que se Mantêm quase inalteráveis ao longo de centúrias – a malga, o púcaro, a talha, o alguidar -, porque inalteráveis se mantiveram os usos a que se destinam. Para quê inventar o que já está inventado? Dirá o povo.
As origens
Os utensílios de barro têm acompanhado o homem quase desde a sua origem. Os primeiros recipientes de barro seriam simplesmente modelados e secos ao sol. O homem não tinha ainda descoberto as virtudes da cozedura das peças. Quando no fogo em que coze os alimentos e aquece o corpo o homem encontrou o modo de transformar o barro dúctil em matéria consistente e resistente, a humanidade avançou um pouco mais. De então até hoje a arte cerâmica foi evoluindo, ou melhor foi-se modificando, estética e tecnicamente. O oleiro aprendeu a seleccionar os barro para a produção das peças, soube escolher a melhor dosagem na mistura de barros e adaptar as técnicas a usar ao tipo de barro que encontrou nos locais onde se fixava.
As peças de barro nasceram para serem úteis, servir quem as usa. É humana a necessidade de procurar unir serviço (uso, função) à beleza, e, dessa união, nasce, sem dúvida, a harmonia que vemos e sentimos numa singela peça de barro.
Olaria portuguesa e seus usos
A olaria de antigamente cumpria as necessidades básicas da população que servia. Num mundo essencialmente rural, o barro era frequentemente utilizado – com tijolos se construía, com telhas se cobria a casa, em vasilhas de barro se comia, e de barro eram as imagens e utensílios com que se prestava homenagem a Deus. Quando nos é dado observar uma vasilha de barro começamos por admirar a beleza da forma, mas, é também importante que tentemos saber como foi feita e para que serviu. Por detrás de uma peça de olaria está o oleiro que a fez e o homem que a usou.
A magia de uma velha vasilha de barro está, também, no ter sido usada. Uma peça de barro sem uso não cumpriu a função para a qual estava destinada. O uso dá à peça um outro sentido, fá-la ganhar outra cor, outra "alma".
A olaria de antanho, ou seja a olaria que vulgarmente se designa por olaria tradicional, é sem dúvida uma olaria utilitária. São peças que têm em seu âmago o fim para que foram criadas. São peças destinadas, essencialmente, ao armazenamento, preparação, cozedura e serviço de alimentos.
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